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O meu nome é Antenor Barbosa dos Santos. Nasci em Belém do Pará, no dia 21 de dezembro de 1924. Agora vou fazer 81 anos. Eu não tive convivência com a minha mãe, só com o meu pai. Porque houve a separação deles e então eu passei a viver com o meu pai. Ele tinha um bar em Belém. Desse tipo pé-sujo, né?

Eu fiz o ginásio... Fui praticamente um menino de rua, pela facilidade que eu tinha, pelo meu pai não ter muita força sobre mim... então eu andava de casa em casa. Tem uma passagem muito interessante da minha vida, quando fui o mascote do governo do Pará, do Dr. Gama Malcher. O chefe de gabinete lá, o Lauro Leal Martins, que me levou para lá, me deu uniforme, porque eles usavam um uniforme com um chapéu - era no Palácio do Governo - e eu andava na boléia do carro do governo. Essa foi uma fase... eu não fazia nada e também não ganhava nada. Eu acredito que tivesse uns 11 anos ou menos, porque eu era do Grupo Escolar Floriano Peixoto. Então depois dessa passagem eu me lembro que eu freqüentava muito a casa do Dr. Lauro Chaves. Eu fui levado para a casa dele pelo filho dele, o Olívio Chaves. Dr. Lauro Chaves na época era procurador geral do estado. Ali em Belém do Pará, a Faculdade de Direito ficava perto da igreja da Trindade e do Grande Hotel. E o Grande Hotel tinha um grande terraço, e as cadeiras ali à tardinha, ficavam inclusive intelectuais, da sociedade, que praticamente se sentava ali para tomar seu sorvete, essa coisa toda. Então havia na época um jornal chamado "Imparcial". E os alunos de Direito e os intelectuais da época chamavam de pasquim. Então me disseram que eu tinha que vender o pasquim. E acontece o seguinte: como eu não tinha muito acesso a dinheiro e essas coisas todas, e todo o dinheiro que eu conseguia eu dava para o meu pai, então eu comprava um jornal e vendia. Mas não tinha preço, o freguês pagava quanto queria. Geralmente chegava... não chegava a um mil réis, que correspondia ao nosso um real hoje. Eu vendia o jornal e ficava esperando - o jornal só tinha 2 laudas - e eu ficava esperando que o freguês terminasse de ler. Então quando ele colocava o jornal assim de lado, e perguntava "Não quer mais?". Então eu pegava o jornal e ia e vendia para outro.

E com isso eu fazia a minha féria. Nessa época eu conheci o Nélio Reis, grande Nélio Reis. Advogado, de uma família conceituada, de uma das famílias mais ricas. Quem tinha automóvel lá era rico e ele parece que era o terceiro automóvel da cidade. Então acontece o seguinte: eu passei também a freqüentar a casa do Nélio Reis. E se eu tivesse tido um pouco de cabeça eu hoje seria grande coisa na vida. Eu aprendi um pouco de inglês, tinha uma professora de inglês. Tinha uma professora de francês. Tudo pago pelo Nélio Reis e pelas tias dele. E o Nélio Reis continuou na minha vida. Eu conheci também um outro aluno da Faculdade de Direito, Daniel Coelho de Souza - essa turma toda era da faculdade de Direito - que era tio do Paulo Coelho. Ele também todo dia me dava os mil réis. Eu tinha uma boa féria.

Eu fiz todo o ginásio em Belém. E passei a freqüentar a casa do Nélio, do Olívio Chaves. Depois apareceu o Elíseo Castelo Branco, também de outra família de fazendeiros - são os Cardoso. Esses passaram a praticamente a me criar depois que o meu pai morreu. Então eu fiquei com eles. E até hoje eu sou considerado filho da família. Eu sou considerado irmão. Hoje por exemplo está fazendo aniversário, se estivesse viva, a dona Carmen Cardoso, que foi quem me criou. Eu a chamava de "mãe" e essa coisa toda. Aí eu fiz o Grupo Escolar Floriano Peixoto. Saí do Floriano Peixoto e fiz o curso de adaptação ao ginásio, no Ginásio Paes de Carvalho. Aí fiz o ginásio. Depois fiz o vestibular, uma espécie de vestibular, no primeiro ano do ginásio. Depois eu fui até o quinto ano do ginásio, e fui até o 1o. Clássico. 

Aí aconteceu o seguinte: o meu pai morreu. Quando o meu pai morreu, eu conheci a minha atual mulher. E eu era rapaz, namorava, essa coisa toda e tal. Em Belém na época todo mundo pensava no Rio de Janeiro. Aqui era o paraíso. Então eu estava sozinho no mundo, praticamente. O meu pai morreu. Foi quando eu conheci a minha Maria Idyla. E, namorando, para fazer cartaz, eu disse: "Vou para o Rio de Janeiro". A Virgínia Cardoso, que me considera muito - hoje ela é viúva do dr. Campos da Paz - , trabalhava no SESP e tinha me arranjado um emprego no SESP. E aí eu fui trabalhar no SESP, era uma organização de preparação de guerra e essas coisas todas com os Estados Unidos... Era Serviço Especial de Saúde Pública. Lá é que eu conheci a Maria Idyla, que trabalhava lá. Então namoramos, essa coisa toda e tal. Isso na década de 1940. Então precisamente em 1947 eu vim para o Rio. Alguns níqueis no bolso e sem nada na cabeça. Absolutamente no ar. Num avião da Força Aérea Brasileira, que eu consegui uma passagem grátis. 

Então cheguei aqui sem saber para onde ir, o que fazer e tal. Mas eu me comunicava com Nélio Reis - foi uma grande coisa na minha vida o Nélio Reis - ele aqui no Rio e eu em Belém. Então eu disse para ele que eu vinha para o Rio. Dias depois de eu ter chegado, procurei o Nélio. Ele me botou no carro dele e foi me mostrar o Rio. Mostrou-me Copacabana, passou pelo túnel e eu achei uma maravilha. Aí o Nélio se dispôs a ajudar com qualquer coisa que eu precisasse. Sempre que eu tinha alguma dificuldade, eu ia lá no Nélio e ele me dava um trocado. Mas aí depois eu meti na cabeça que aquilo não era para mim. Não era o correto. Aí eu saí à caça de emprego. Através do marido da Virgínia, que eu considero como uma irmã até hoje, graças a Deus, ela está com... mas ela não gosta de falar na idade e eu também não vou falar. Então através do Doutor Campos da Paz eu consegui um emprego na Schering, era de divulgador científico, entregador de amostras à médicos. Eu trabalhei durante 10 anos.

O nome do cargo era divulgador científico. Mas era entregador de amostra. Nome pomposo. Mas ganhava bem. Eu levava as amostras para o médico, dizia que o remédio... Eu queria dar uma lição de farmacologia ao médico! Coisa que eu não fazia. Eu fazia amizade com o médico e entregava a amostra e estava resolvido o problema. Mas eu trabalhei 10 anos na Schering. Eu tenho saudades da Schering até hoje. Tinham umas coisas muito interessantes lá. Tinha um colega na Schering... lá nós recebíamos o salário e no dia seguinte ele vinha pedir dinheiro emprestado para nós. Eu dizia: "Mas Oscar, você pedir dinheiro emprestado. Nós recebemos ontem!". Ele dizia: "Não, é que eu depositei todo o meu dinheiro para render juros". Eu achava esse Oscar engraçado. Mas ele levava isso a sério. 

Eu remei muito, fui para o Clube de Regatas do Flamengo em 1948. Quem me levou para lá foi meu amigo Elísio Castelo Branco. Então, lá eu aprendi a ser timoneiro. O nosso técnico era o Rodolfo Keller, um grande técnico, criatura fora de série. Nessa guarnição nós tínhamos, inclusive, o Gustavo Richet que era o proa do que foi considerado o 'transatlântico de luxo'. Nós treinamos essa guarnição durante uns 4 anos e ela veio a se sagrar tri-campeã carioca, bi-campeã brasileira e sul-americana de remo. Nós fomos campeões. E eu era o timoneiro. Era uma guarnição que não perdia para ninguém. Agora, eu tenho uma placa no Clube de Regatas do Flamengo, no chão, com o meu nome separado. A minha guarnição, tiraram o meu nome porque essa guarnição correu uma vez só contra o Cambridge de Londres e ganhou. Eu não corri nesse dia e então botaram outro nome lá. Mas o 'transatlântico de luxo' era o Antenorzinho, eu era chamado de Antenorzinho naquela época. O presidente do Clube de Regatas do Flamengo era o grande Gilberto Cardoso. Então eu patroei aproximadamente, neste período de 1948 a 1960. Depois o Buck, que foi meu remador, grande técnico também, me chamou para uma regata internacional Brasil-Portugal, a qual nós ganhamos. O 'transatlântico de luxo' não perdia uma. Depois se desfez por vaidade e essa coisa toda. Não conheço a história. Mas quem está ainda na ativa na CBD, Confederação Brasileira de Desportos, é o André Gustavo Teixeira, que inclusive é do comitê olímpico internacional. E essa é uma passagem da minha vida que eu me orgulho muito, por ter defendido o Brasil num torneio internacional na Lagoa Rodrigues de Freitas.

Naquela época eu morava no Centro da cidade. Antes da Schering eu trabalhei numa casa de eletrodomésticos que eu não me recordo o nome. E tiveram outras casas em que eu andei trabalhando e depois é que fui para a Schering, de onde me mandaram embora porque eles não admitiam alguém fazer 10 anos de casa. Dizem que o Tancredo Neves era praticamente o dono da Schering. Naquela época ele era o procurador do Assis Chateaubriand e a Schering era do Assis Chateaubriand. Então ninguém fazia 10 anos lá. Fazia 10 anos e mandavam embora para não ter estabilidade. Eu fiquei assim no ar e tal. Aí eu fui trabalhar numa outra firma, esqueci o nome, fazia concorrência com a Johnson & Johnson. Não me lembro... Eu só sei que eu fui para a Zona da Mata. Fui ser divulgador científico na Zona da Mata. Mas aí o produto não era remédio, era mais material cirúrgico: algodão, ferramentas, aparelhos, essas coisas todas. 

E depois fui trabalhar no Cássio Muniz, eletrodomésticos. Eu trabalhei na Cássio Muniz durante algum tempo, isso na época em que houve o assassinato do presidente dos Estados Unidos. Eu tive a notícia quando estava trabalhando na Cássio Muniz. Trabalhava no escritório. Então dali eu saí. Me mandaram embora. Eu não estava correspondendo às expectativas. Havia uma amizade entre mim e os chefes. Nós vivíamos muito juntos, eu não associava o trabalho com eles e então me mandaram embora. Fui indenizado. Dessa indenização eu comprei na planta... Aliás, com a indenização da Schering, eu comprei o meu primeiro apartamento, a prestação. Em Botafogo, na rua Álvaro Ramos. 

Depoi fui trabalhar na Livraria Freitas Bastos. Lá eu trabalhei algum tempo e inclusive o Lima que é o atual dono da Renovar trabalhou lá nessa época. Então eu encontrei com um colega meu de ginásio e de tiro de guerra em Belém, eu o encontrei aqui, o Manuel.... Ele era tão importante que a gente chamava ele de Mané Mané . Todo mundo conhecia o Mané Mané. Ele veio para cá como franco atirador e aqui chegou até a se formar em Direito. Ele vendia livros na porta do fórum e me convidou, querendo ajudar, para o ajudar para vender livros com ele lá. Isso já era na década de 1960. Na época em que a Constituição de manhã tinha um teor e de tarde tinha outro. A Revolução alterava tudo e então eu vendia aqueles folhetos na porta do fórum e ganhava um dinheiro muito, mas muito bom. 

Era a Constituição. Eram as alterações da Constituição. O Mané Mané mesmo mandava imprimir. Ele recebia o material e então tirava aqueles folhetos pequenininhos e vendia aquilo ali a dois reais cruzeiros... bom,o dinheiro da época. Eu sei que ele ganhava muito dinheiro e conseqüentemente eu levava já dinheiro para casa. Nessa altura do campeonato... Ih, passou uma parte..... Tem uma passagem... A Livraria Freitas Bastos era onde é a Caixa Econômica no Largo da Carioca. Então nessa época um amigo meu me disse: "Você não quer vender a Enciclopédia Barsa?". Eu disse: "Como é que é isso?". Ele disse: "Você vai nos procurar no Copacabana Palace". Deu lá um dia da semana e eu fui. Cheguei lá e fui entrevistado pelo senhor Demitrio. Eu não sei se eu me saí bem, mas só sei que ele simpatizou comigo e eu passei a vender a Barsa. Aí eu vendia a Barsa para muita gente. Eu vendi para o Simonal, para o grande Simonal. Vendi a Barsa para outras pessoas importantes que não me ocorrme agora. E vendi Barsa para o Nélio Reis. Então, eu já não tinha mais para quem vender a Barsa, minha fonte secou aí e eu procurei o Nélio. Eu disse: "eu gosto de livro e essa coisa toda, mas eu ...". Quando eu ia lá ele me dava 200 mil réis. Era dinheiro para caramba naquela época. Aliás, eu estou fazendo confusão. É mais ou menos na época da Revolução. A minha memória está meio baleada. O Nélio disse: "Eu vou te arranjar um emprego". Então ele fez uma carta, eu me lembro até hoje que era um papel amarelo e as letras verdes. Ele fez e me mandou procurar o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da UEG, na rua do Catete. Grande UEG. Então eu cheguei lá no Centro Acadêmico e me apresentei, com o Nélio me apresentando para vender livro lá.

Foi em dezembro de 1964. Eu sei as datas precisas pelo seguinte... porque eu comecei a vender livro e fui praticamente admitido... Não teve comodato, não teve processo nenhum, foi verbal, no Centro Acadêmico da Faculdade de Direito pelo então diretor , presidente do Centro Acadêmico, Sérgio Motta, que vinha substituindo o Vivaldo Barbosa, esse que foi deputado, grande amigo meu. Então eu passei a ser livreiro da UEG em substituição ao Uri, grande Uri, que trabalhou também 40 anos na UEG. Ele foi para Israel e lá em Israel parece que teve um problema e morreu. É como se diz: sorte do urubu... Pessoalmente não conheci. Só de nome. Então eu fiquei efetivo porque ele morreu e não voltava mais. Então aí é o meu princípio na UEG. Comecei em janeiro, dia 5 de janeiro de 1965.

Era dentro do Centro Acadêmico que eu trabalhava. Tinha lá uma mesa e depois nos fundos tinham umas estantes. Tudo dentro do Centro Acadêmico. Então a minha vida passou a ser essa... Nessa época eu já estava casado. Eu estou casado há 45 anos. Eu e a minha Maria Idyla passamos a viver praticamente dentro da Faculdade de Direito. Ela batia estêncil para fazer apostilas, em casa. E eu vendia livros lá. E fazia farra com os alunos. Todo dia. Todo dia tinha choppinho no Lamas. 

Os livros do Uri, o herdeiro do Uri levou para o Fórum, porque o Uri também tinha uma livraria no Fórum. Eu montei a minha livraria através de livros que eu comprava na Forense. O Nélio Reis mais uma vez me dando todo o apoio, me apresenta ao senhor Mário Santos da Forense. Eu comecei então a comprar os livros de manhã, de tarde eu voltava lá e pagava. Eu comprava, vendia, pagava. Fazia aquele rodízio. Mas com a ajuda do Nélio, que era advogado da Forense... O senhor Mário Santos disse assim: "De hoje em diante você vai lá na loja e compra o que você quiser e paga quando puder. Não tem problema". Mas eu passei a proceder da mesma maneira. Eu comprava o livro, vendia, ia lá e pagava. Eu não deixava passar tempo não.

A minha margem de lucro sempre foi na faixa de 10%. O processo da venda de livro é o seguinte: a gente compra um livro no valor de capa de R$100,00, por exemplo, mas eu compro ele por 35%, 40%. E vendo para o aluno com o desconto de 20%. Então a minha margem de lucro geralmente varia entre 15 e 20%. Na área de Civil o livro mais vendido era do Caio Mário. O professor Caio Mário até hoje é pioneiro. Depois tinha o livro da Saraiva do Washington de Barros Monteiro. Ele vendia muito. Os estudantes de Direito compravam muito livro. Não tinha xerox. Comprava-se e muito. Os meus pedidos, depois que a Forense me abriu espaço, as outras grandes livrarias também me deram. Eu dava como referência a Forense, a Forense pintava o meu pavão e eu passei a ser considerado comprador número 1 dessas livrarias de Direito. Eu não tinha muito tino, mas tinha muita sorte porque eu vendia todos os livros! Numa turma, por exemplo, de 150 alunos, eu vendia na pior das hipóteses 100 livros. Então eu pedia para as livrarias: "Me manda 50 livros". Hoje não posso pedir 3, porque encalha.

O aluno não compra livro hoje. Olha, ele - o aluno - quer passar. Vai para a Internet, tem a informação na hora. Então faz a prova, passa e depois? Agora, eu vendo hoje de 5 a 10% de livros para uma turma de 150 alunos. Para você ver como caiu. Mas deixa eu contar a minha história no Centro Acadêmico. Então eu comecei a crescer, mas graças a Deus em termos de amizade, porque eu ganhava e gastava. Eu fazia questão de pagar a despesa.

Eu trabalhava com a Freitas Bastos, Forense, Saraiva, RT, Max Limonad em São Paulo. Todas as livrarias. Não me recordo agora. Havia livrarias de advogados. Todas. A minha livraria era freqüentada por vendedores de todas as livrarias. Eu era considerado um comprador número 1. Eu comprava 100 livros de vez. O meu espaço lá no Catete era mais ou menos como esse aqui na UERJ. Aquilo foi uma estrebaria antes. Há muitos anos. Você entra, do lado direito tinha um espaço... Era amplo, muito amplo. Eu botava os livros sobre a mesa. Todos os dias eu arrumava. Não tinha furto. Eu tinha um slogan: "diálogo dá crédito". O aluno chegava lá e dizia: "Barbosinha, eu quero tal livro". Eu dizia: "Não tem problema". Eu perguntava: "Qual o teu nome?" Eu anotava o nome neste meu caderno. "Qual é o teu período?". Não, era série naquela época, era ano. Eu botava o nome, "qual o livro que tu queres", somava, dava X. "Vai dar quanto agora?". Ele dizia: "Eu não posso dar nada". "Não tem problema. Pega o livro". Na base da confiança. Era uma família. Eu sabia onde eles moravam. Eu sabia tudo. Por causa das festinhas, quase que diariamente. Acabava a aula e ia para o chopp lá no Lamas. 

Professores também freqüentavam. Compravam. Todos eles. Eu era prestigiado. Hoje o livro é muito caro. O que me ocorre é que o aluno não tinha outros recursos, só tinha o livro, ou o caderno, ou as explicações dos professores. Hoje não. Hoje ele tem a internet. Ele quer uma informação, ele vai lá e em 2 minutos ele tem a resposta do que ele pergunta. Agora ele não vai amanhã ter condição perante aquele que pega o livro e vai no livro... tem alunos aqui que a gente destaca, entende? Que compra o livro, se interessa pelo livro.

A universidade sempre teve biblioteca. Nessa época, além da biblioteca o aluno também comprava o livro porque queria ter o livro em casa. Naquela época se morava mais em casa e tinha onde se colocar os livros. Mas eu acho que não é por aí não. Eu numa sala de 150 alunos, geralmente quem se interessa mesmo, quem vai ser alguém amanhã, são uns 15%, no máximo. Isso hoje. Antigamente não. Eu posso lhe dizer que 30, 40% dos desembargadores conhecem o Barbosinha, compraram livro com o Barbosinha.

O comecinho de 1965 foi complicado. Não tinha essa censura. O que aconteceu de importante nessa época foi quando o Centro Acadêmico foi invadido pelas Forças Armadas. Então as Forças Armadas quebraram, botaram todos os meus livros no chão, dinheiro, tudo o que eu tinha ali. Não me levaram um níquel. Tinha até jóia dentro da gaveta. Nada. Mas pisaram por cima de tudo, essa coisa toda. Quer dizer, roubar não. Porque eu inclusive, como falei, fazia farra toda noite com o pessoal do Centro Acadêmico. O Centro Acadêmico todo ele era de esquerda. Tinha uma passagem do Centro Acadêmico que talvez interesse. Eu no Centro Acadêmico era um cara muito importante. Cheguei a ser secretário do curso pré-vestibular que o Centro Acadêmico mantinha. Eu fazia o pagamento aos professores do Centro Acadêmico. Um pré-vestibular, era mantido pelo Centro Acadêmico. Quase todos os alunos da Casa e os professores do CAP. O Hélio Alonso era paralelo. Ou o aluno era do pré-vestibular da UEG ou do cursinho Hélio Alonso. A Hélio Alonso hoje é uma grande faculdade. Eu secretariava. E pagava professores. Eu recebia, fazia tudo. No tempo do presidente Marco Aurélio Borba. Ele era uma espécie de meu filho. Ele era uma espécie de Zé Dirceu da época. Tá entendendo? Ele era amigo do Lula, foi para Cuba, foi para não sei o que, essa coisa toda e tal. Então quando ele queria se esconder da polícia, ele ia lá para casa. E dormia lá em casa. Eu morava perto da faculdade, ali na Silveira Martins. Então eu guardava o Borba lá. 

Minha esposa batia as famosas apostilas. Aquilo era bico para ela. É o que hoje resulta num livro. Por exemplo, uma apostila considerada, do professor Barbosa Moreira: essa apostila ele transformou em livro. Apostila em que o aluno copiava a aula do professor e dava no gravador para ela, e ela datilografava. Ela era funcionária federal, da Fazenda, e aquilo era um bico. Então com esse trabalho dela e com o meu trabalho de livros eu consegui o meu pé-de-meia, apesar de toda noite ir lá no bar, no Lamas. Porque aquilo era sagrado. Eu era do choppinho.

Lá no Lamas a conversa sempre foi a mesma. Era política. Muita política. Futebol. Namoro. Eu era o cupido. Eu era o ponto de encontro. Chegava a dona lá no meu canto na livraria e dizia: "Pô, Barbosinha". "O que houve? Brigou com o fulano?". "Briguei". "Deixa comigo". Quando ele chegava eu falava... Eu ajeitava a coisa... Não havia um casamento na época que eu não fosse convidado. A Marina Germano, por exemplo. A Marina Germano na época era secretária do Simonsen e estudava na Faculdade de Direito. 

Olha, um livro caro na época era o livro do Sussekind, "Instituições de Direito do Trabalho". O "Vade Mecum", Forense era considerado caro. Agora, a Constituição era mais barata! A Constituição, os Códigos eram baratos. A legislação em si. O pessoal não lia lá, não tinha essa forma. Ele chegava lá e dizia que queria o livro e era dessa forma.

Eu não me atentei muito para o início da xerox. Porque já foi aqui na UERJ, no Maracanã. Lá no Catete, como eu disse, era uma família. Tanto que casamento eu fazia parte. Era churrasco todo final de semana. Era almoço na casa de fulano. Aniversário. A agenda social era cheia. Era uma família ali. Os professores participavam. O professor Ricardo-César Pereira Lira, grande figura, uma criatura fora de série. Sempre social. Sempre pronto a atender aluno a qualquer hora da noite ou do dia. Professor Novelli, uma cultura. Uma biblioteca ambulante. Também muito acessível. Nessas 4 décadas, eu não vi um único diretor que se modificasse... As modificações eu estou verificando atualmente: agora aqui tem diretor novo, ex-aluno. Antigamente não. Antigamente eram mais medalhões, essa coisa toda. Eu me lembro do diretor atual. Ele foi a mesma coisa. Não mudou nada. Mesma coisa. Andava pelos corredores, conversando com todo mundo.

Nunca trabalhei com consignação. E mesmo os livros dos professores, eu adquiria na livraria. Nunca teve consignação... Tive uma vez com o professor Oscar. Ele tinha um estoque do "Crítica à Constituição" e eu apanhava o livro na casa dele e fazia negócio com ele... O livro estava esgotado, não tinha na praça e ele me fazia esse favor. Nunca tive que deixar um percentual para o CALC. Pelo contrário. Quando eu fui secretário do CALC eu ganhava. Eu tenho inclusive documentações da época.

E aí eu trago a livraria para a UERJ, no Maracanã. Aí entra uma grande figura. Nós fomos comunicados que íamos mudar do Catete para cá. Agora, eu vir para cá é que foi uma luta. Eles não queriam de jeito nenhum. A reitoria da época não queria, que era o professor Caio Tácito e o professor Chueri. Então eu não vinha de jeito nenhum. Mas eu tinha um grande amigo, e tenho um grande amigo que se chama Célio Borja. O professor Célio Borja praticamente impôs - impôs é força de expressão, pediu. Na época ele era a terceira pessoa na República do Brasil. Ele era presidente da Câmara dos Deputados no governo Geisel. Então ele pediu que fizessem... "Barbosinha não vai atrapalhar ninguém", e essa coisa toda. E aí então eu vim para cá em 1975... 

Fui pedir ajuda a ele. Eu tinha muita intimidade com ele porque participei das campanhas dele para deputado. Eu pregava cartaz dele, distribuía santinho dele. Por isso o Célio Borja para mim não existe, é o máximo. Eu nunca sei como vou pagar a ele. Ele pediu por mim. Só que político quando pede alguma coisa fica devendo alguma coisa. Pois ele se arriscou, não é? Ele pediu por mim para eu ficar aqui. Já me perguntam: "Como é que você veio para cá". "Eu não sei: foi uma carta do Nélio Reis para um aluno que era presidente do Centro Acadêmico em 1964, e eu comecei em 1965". Então veja bem, até me emociona um pouco. O professor Célio Borja e a senhora dele, D. Helena, são criaturas fora-de-série. Depois ele tinha uma filha que estudava aqui. Eles iam em casa apanhar livros. Essa história de apanhar livros em casa, nosso ex-diretor, o Tepedino, quando estava se preparando para mestrado, foi ele e - na época namorada depois esposa, a Celina - a professora Celina, foram na minha casa num domingo. E eles me fizeram sair de casa num domingo e vir aqui apanhar um livro que eles precisavam para terminar a dissertação que eles estavam fazendo. E eu imediatamente vim. E ele não foi o único que me tirava de casa para vir aqui aos sábados e domingos para pegar livro. Quer dizer, não havia na época - há pouco você me perguntou sobre o porque do interesse no livro - não havia na época uma informação mais imediata. Não havia a xerox, nem a Internet, entende? Se tivesse a Internet não havia a necessidade de ficar procurando o Barbosinha. A Internet da época era eu.

O meu estoque lá no Catete era pequeno. Aliás, uma coisa eu omiti. Um pecado. Quando eu cheguei aqui na UERJ, na UEG, dei de cara com o professor Simão Isaac Benjó, também outro baluarte na minha vida. Este é que abriu dentro da UERJ as portas para mim. O Benjó era uma espécie assim de hors-concours. De dois em dois anos ele era paraninfo das turmas. Em 1966 eu fui tesoureiro dos alunos da turma de 1966. Eu recebia o dinheiro deles no balcão do CALC, e prestava contas quando o tesoureiro oficial deles queria. Então eu solicitei depois que só aceitava se todo o sábado eu fizesse as contas. Então eles iam lá para casa. Eu ganhava presentes... Ah, que saudade da UEG! Eu vou lhe contar! Até hoje eu tenho copo de cristal de alto nível. Presente de aluno. Eu juntava o dinheiro de segunda a sábado e sábado eu prestava conta. Então eles me davam recibo. Eu tenho esses recibos. 

Quando eu cheguei aqui na Faculdade de Direito, encontrei o professor Benjó, que me apresentou à turma de 1966, da qual ele era professor de Direito Civil, como colega dele de ginásio, porque nós estudávamos no Ginásio Paes de Carvalho, no curso de adaptação: era "curso de adaptação ao ginásio". Em Belém, estudei com o Benjó. E eu disse: "Não, professor. Eu sou livreiro". "Não você é meu colega". Então eu tinha muita intimidade com ele, mas aqui dentro ele era professor e eu livreiro. Eu sempre separei isso. É o aluno e eu sou livreiro. É o professor e eu sou o livreiro. Eu sempre separei isso, com toda a intimidade que eu tinha. Então o professor Benjó, dando esse aval à minha pessoa, eu fui tesoureiro da turma de 1966. Fui homenageado por muitas turmas, tenho até fotografias e essa coisa toda. Eu fui homenageado pela turma de 1970. Na turma de 1966 eu fui homenageado com uma placa. E o que eu tenho de convites para formatura... ia às formaturas. Eu e a minha mulher. Eu ia às festas. Eram umas festas de dar água na boca ao Lula!. A formatura era no Municipal, geralmente. E o baile de formatura era no Copacabana Palace, no Glória... Eu botava smoking. A festa de gala era com smoking. Então acontece o seguinte: por essa abertura que me deu o professor Benjó, isso já aqui no Maracanã... mas era a mesma coisa: entrava diretor, saía diretor... e eu era uma espécie de piolho em cachorro: eu estava em todas! As pessoas saíam para almoçar e eu ia almoçar com eles. Iam tomar um drink, eu ia com eles. 

Isso é a minha vida! Isso é melhor do que dinheiro em caixa. Você quer ver uma coisa: o Luiz Fux, ele não entra na faculdade sem ir lá no meu balcão me dar boa tarde. "Oi Barbosinha, como é que está?" Ele é ministro de Estado, ministro da República. O Fux também é uma criatura - você me perguntou sobre a mudança das pessoas - o Fux é a mesma coisa: simples, desde o tempo de aluno. Mesma coisa. Gente superior. Até hoje compra livro comigo.

São 40 anos de Faculdade de Direito. Quer dizer, 1965 a 2005. Vi passar muitos diretores, todos eles procederam comigo da mesma maneira. Eu nunca entrei na sala de diretor para fazer queixa de nenhum aluno. Eu resolvia os meus problemas. Cheque sem fundo, essas coisas. Isso já aqui, porque no Catete não dava isso. Não tinha nem cheque. Lá era no caderno. Agora você falou de diretor linha-dura: o Novelli, muito fechado. O professor Novelli, mas um santo... Houve um processo para eu vir para cá que ele deu um depoimento que só lendo...Eu acho que eu tenho isso...

Para se tornar um bom livreiro... ser considerado pelos clientes. Outra coisa não existe. Não exige cultura. Não exige conhecimento jurídico... É claro que a gente pega a orelha do livro e lê... Agora nãofaço mais isso. Antigamente, as coisas eram tão boas que conversando com alunos e com professores, eles davam as dicas dos livros que tinham lido... "Esse aí é..." E no comentário eu estava sempre presente, né? E eu então saia dali, comprava o livro e botava na minha livraria: "Esse ai eu vou vender". Tem uma passagem com o professor Roberto Lyra, eu freqüentava muito a casa dele, ele fazia muita questão que eu saísse com ele e que andasse do lado dele. Por exemplo, tinha uma missa, tinha um evento qualquer e ele me convidava e eu ia com ele. "Mas professor...!" "Não. Para você ficar conhecido". Ele era muito vaidoso. Grande Roberto Lyra.

Quando eu vim para o Maracanã, já vim para este lugar. Sétimo andar. A sala é no corredor F, 7049. Não tem nome. Não tenho idéia da metragem. E os livros, também estão todos eles superados. Hoje em dia o comércio de livros se tornou um pouco difícil pelo seguinte: as livrarias exigem que você compre um tanto para faturar. Por exemplo, que compre no mínimo R$300,00. Então se eu preciso de um livro, eu não vou fazer estoque porque não vende. Agora tem livrarias que vendem o livro. A Forense vende 1 livro, vende 2, quantos eu queira. Me manda a conta e eu pago à vista. Eu não quis mais crédito. Eu quero pagar à vista. Então eu compro o livro, pago, e se eu morrer ou coisa parecida, não tem problema. Ainda hoje trabalho com as livrarias. Se não tiver, geralmente, encomendo. Não é sempre não. Antigamente eu tinha a vantagem... Hoje tem professor na Casa que eu não conheço. Incrível, né? Antigamente, o professor pegava a bibliografia que ia dar e me dava. Ele dizia: "Olha, Barbosinha, são esses livros que eu vou pedir para os alunos". Então isso me facilitava e muito. Eu comprava os livros e já tinha sempre... Hoje não. É no sopro. O aluno chega e diz: "Tem o livro tal?". Eu digo: "qual foi o professor, quem foi que indicou?". Aí eu anoto: "indicou tal livro. O livro vai sair." Então eu compro 3 ou 4. Não pode comprar mais do que isso. E eu comprava 50, 100! E tem aquela coleção "Primeiros Passos" que eu tenho foi toda imposta, praticamente, pelo professor Antônio Celso. O professor Antônio Celso gostava muito e pedia para os alunos lerem. Veja bem, vendia-se muito livro na época, mas o aluno não lia muito não. Só lia o necessário. Em tempo de prova, eu vendia quase todos os livros. Só pelo interesse que ele tinha. Não é o hábito de ler. O livro não era vendido pelo fator de cultura. Não, não era isso. Era necessidade de informação para a prova. Hoje não. A necessidade é dada pela Internet e acabou o Barbosinha!

Os livros nunca acabarão. Sempre tem um estudioso. O livro é imprescindível. E para um aluno, aquele que quer saber da coisa, ele vai à Internet, capta a informação e vai comprar o livro. É esse que é o meu público, meu mercado. Geralmente essa gama de alunos é a que vem fazer mestrado depois, é a que passa nos concursos para procurador, juiz, defensor. Como eu tenho defensor!

Eu gosto de ler alguma coisa. Ultimamente eu estou lendo a Bíblia. Tem coisas ali que eu não entendo, mas aí a minha mulher me explica porque ela faz um cursinho de teologia. Fiz a minha vida vendendo a Constituição aos pedaços. Os folhetos. Nessa época se vendia muito. Comprei 3 apartamentos com livros! Num apartamento eu moro. No outro mora o meu filho. E outro apartamento eu dei para as minhas netas. O meu apartamento é no Flamengo. O das minhas netas em Botafogo. E o do meu filho em Laranjeiras.

Essa última Constituição ficou divulgada, quase não se vende ela sozinha... Porque ela vem nos Códigos - tanto da Saraiva quanto da RT, Revista dos Tribunais - que são mais organizados. E ela vem inserida no Código de Processo Civil, no Código Civil, no Código Penal, no Código de Processo Penal, no Código Comercial. Você pede o Código Comercial, vem a Constituição. Até nem se vende mais, mas há procura. A Constituição é imprescindível. Ela é que rege toda a história. 

Eu gostaria de ficar aqui a vida toda falando sobre a minha vida, porque a minha vida sempre foi dentro da UERJ. Agora me deixa muito triste porque o aluno atual é muito frio. Ele não cumprimenta você. Ele tem uma atitude hostil, arrogante. Não é como é os alunos de ontem. Por exemplo, o atual diretor da casa não passa por lá sem me cumprimentar. Ele não tem porque, é diretor, está com a cabeça cheia de problemas e essas coisas todas para se preocupar e falar. O Fux, ministro, cheio de problema... mas se preocupam. Quer dizer, hoje em dia, o aluno... Aliás, você me fez uma pergunta sobre o perfil do aluno, pois bem, o aluno já entra aqui como desembargador. Posudo!

O hábito do chopinho se perdeu para mim, porque não houve mais o livreiro. Aí eu tinha mais contato com os professores. Por exemplo, o Lopo Alegria, Nilson Sant'Anna... Esses professores quando tinham coisa, falavam: "convida o Barbosinha!". Mas depois foi caindo tanto. 

Tenho um filho formado em Direito pela UERJ; especialista em marcas (INPI). Fez curso nos EUA, fala bem o inglês e o espanhol. Ele é a razão da minha vida.

Eu chego aqui na UERJ geralmente às 10 horas da manhã e saio 15 para meio dia. Pego o ônibus aqui na frente, vou até a Igreja de São Francisco Xavier, pego o metrô e vou para casa, na Marquês do Abrantes, no Flamengo, a um quarteirão da minha casa. Almoço, dou um cochilo, que eu não sou de ferro, e 4 horas volta para cá. Fico aqui até às 15 para às 7. Aí volto de táxi para casa à noite. Sempre trabalhando sozinho. Eu e Deus. Gosto disso, do controle.

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